sexta-feira, 30 de junho de 2017

[...]
















O que mais me resta exceto o seu amor inconsistente?
Nada, eu respondo.

Mesmo sob os maiores tremores, meus ombros suportam o mundo.
Não há morte pior que se compare com o vazio da sua indiferença.

















[junior ferreira]

domingo, 7 de maio de 2017

[...]











Há muito tempo não conto estrelas.

Disseram que cada estrela que eu contava
uma sarda correspondente surgia em meu corpo.
Crível, para uma criança que odiava
se olhar no espelho.
Parei de observar o céu noturno,
esqueci da lua,
de Júpiter
e dos corpos celestes que cortavam a noite.

Com o tempo, além do tempo, também me
esqueci do corpo que arrebentou minhas noites,
dilacerou meu coração
e colocou todo amor
na avenida cheia de faróis.


Hoje eu voltei a contar estrelas.












[junior ferreira]



sábado, 6 de maio de 2017

[...]










Sinto o meu peito mais forte, e sim, sinto que estou vivo.
Mesmo que pareça estranho o termo vivo, diante desse mundo sem
sentido algum, estou vivo, de pé.

Quando meu cérebro sussurra verdades, ele me diz que estamos de cabeça pra baixo e que somente uma força consegue nos manter firmes ao chão, a gravidade.
Se percebo que dependo dessa força e ela pode cessar a qualquer momento,
meu pescoço começa a me sufocar, minhas veias afinam e todo o meu corpo
tendencia a uma tensão que não vem deste mundo, não tem classificação.

Nesses dias de tensão, perco o sentido
os barulhos aumentam, a respiração diminui.
Embora tudo ainda mantenha um sentido externo
e sem barulhos ao meu redor.















[junior ferreira]














terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

[...]











São tantos universos que se somam sem nunca terem se conhecido,
nunca se tocado, ou visualizado a luz da existência.
Mesmo assim se conhecerem,
sabem que tem algo ali, fazendo companhia,
ouvindo os sussurros,
lamentos,
orações.

Nos momentos mais tristes, eu me isolo.
É tão fácil, não preciso recorrer a manual ou a ferramentas inter-galáticas.
Se abro a porta e sento em meu sofá,
o que me encara é a TV, o jornal no chão, Haper Lee na estante.

É trivial sentir-se sozinho, enxergar-se sozinho é
ainda mais banal - e assim as combinações de solidão formam-se.
Difícil mesmo é perceber que essa dor vai ser carregada
até o último dia.
E que a minha sombra vai deixar de me seguir,
o meu gato vai deixar de sentar na janela
e meu violão vai se tornar poeira.

Onde cabe o amor em toda essa trajetória?

Vi num filme, que o amor percorre quaisquer dimensões,
até mesmo aquelas que não conhecemos.

Acho que não faço parte desse universo,
muito menos daqueles que se somam
e se cuidam
e se misturam e viram
apenas
um.












[junior ferreira]

sábado, 4 de fevereiro de 2017

[...]









Quando fui apanhar o cartão postal
contei todos os degraus
me segurei no corrimão
e veio a minha cabeça aquele cheiro nostálgico de poeira
Aquele mesmo cheiro que tomava conta da sala
quando parávamos pra olhar as fotos antigas.

Lembra da vizinha? dos amigos que ficavam correndo
na rua de baixo da nossa?
Lembra da Dona Antônia?
Achávamos que algumas pessoas eram loucas,
outras sozinhas,
que eram felizes e quando nao tínhamos ideia nem da hora de voltar pra casa,
inventávamos nossas próprias historias
para rir, nos sentirmos bem.

Hoje vejo fotos aleatórias de pessoas
que nao estão mais por perto.
Sinto saudades.

Contudo, nao quero esse tempo de volta.
Quero um novo tempo, permanecer no que ja foi,
não quero mais.

Quero viver.














[junior ferreira]

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

[...]












Ontem a tarde terminou vermelha.

O fogo do sol ardia a 8 minutos e 20 segundos luz,

queimando até mesmo a M87 a 100 milhões de anos-luz

acima de nossas cabeças.

Enquanto tudo se acabava em brasa,

sua voz esfriava,

suas frases tornaram-se sílabas - muitas vezes repetitivas.


Estou aqui, no planeta deformado pela gravidade e estrangulado na garganta do nada.

Espero que os momentos de frieza sejam nebulosas leves,
mais que efêmeras e que quanto antes
encontrem os eventos do horizonte e se percam no próprio tempo

naquele buraco indomável

violento

infinitesimal











[junior ferreirs]




domingo, 15 de janeiro de 2017

[...]










Às vezes perco o meu eu

em micro-espaços

                      momentâneos soluços

leves descontrações

                      um piscar de olhos

Instantes estes nos quais

o delírio torna-se meu reflexo

revelando a verdade de que a minha mente é o meu maior barulho.












[junior ferreira]