segunda-feira, 12 de março de 2012

[...]











Sem me preocupar com o que realmente acontece molecularmente,
Quantas configurações uma molécula de ácido ascórbico adquirem em um milésimo de segundo,
eu vou para a cozinha.

Alho, cebola, vinagre, alface, massas e pães.
Tudo o que pode ser construído e imaginado nesse universo, sem que eu me preocupe
com a estrutura microscópica das coisas, satisfaz a minha vontade de inventar.














[junior ferreira]
[...]










É de metal, que a alma é feita
E se quer compartilha-la, modifique sua forma sob o extremo calor

Ela permite envolver-se aos braços, se adaptar em tudo que pode ser criado
Contudo, a alma permanece, imutável em sua estrutura como o aço da qual é oriunda














[junior ferreira]

sexta-feira, 9 de março de 2012

[...]








Se não for para fazer sentido, não venha.

Não venha, se não for para fazer sentido.








[junior ferreira]









quarta-feira, 7 de março de 2012

[...]










Nessa mesma avenida veloz
Transeuntes vão e vem, a mesma ideia se dissipa em cada horizonte,
Cada esquina se desintegra em diversas ruas.

Continuam as pessoas,
A briga pela melhor indumentária é infinita.
Os carros, as frases soltas de assuntos que pegamos pela metade,
Os sorrisos, olhares, tudo permanece nessa avenida efêmera.
















[junior ferreira]

domingo, 4 de março de 2012

[...]










Não há nada para mudar.
Neste samba, o carnaval é o mesmo.
O tempero é o mesmo quando o azeite é diferente.
















[junior ferreira]

sexta-feira, 2 de março de 2012

[...]











Hoje choramos, esclarecemos o que era hermético.
É difícil entender que o tempo muda, mas as flores desabrocham e secam e nascem e florescem novamente. Nem tudo morre. O tempo é relativo e a reconstrução é permanente quando acreditamos em todas as possibilidades.












[junior ferreira]

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

[...]












E se gosto dos meninos que dobram a esquina,
Com todo aquele charme,
Gosto de verdade.

Das silhuetas, olhares, de tudo aquilo
Que me é estranho e permanece oculto,
Eu gosto.

Ai, se pudesse.
Se pudesse, com toda essa vontade
Que não me é suprida. Falaria aos meninos o quanto os amo.
Tenho medo, contudo.

E por medo, digo que não gosto dos meninos.















[junior ferreira]

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

[...]










Deixe viver só de solidão
E o que clareie...
Clareie Lá.

Viver nessa cidade que me leva,
Que me alaga na saudade.

Deixe viver.












[junior ferreira]

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

[...]










Se pudéssemos congelar os momentos e guarda-los em caixinhas para toda a vida, tudo seria tão mais alegre.

Lembrar dos sorrisos que ficaram naquele final de semana, naquele carnaval em que a felicidade tomou conta de nós todos.

Lembrar dos amigos, dessas pessoas que me fazem sorrir a todo tempo.

Ai se pudéssemos, nessa mocidade, nunca nos separarmos, nunca nos habituarmos a tristes mudanças e despedidas.

O tempo em si é essa lembrança.












[junior ferreira]

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

[...]












Em alguma parte alguma
verei o teu rosto responder aos meus chamados - sem som, lamúrias.

Em outra parte
verei aqueles sorrisos que tanto esperei

Em alguma página
lerei os ossos da sua espera

Em alguma parte alguma[...]











[...]

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

[...]












E você sempre fazendo o mesmo chá
ao me ver enrolado em mil cobertores,
nos dias ensolarados de verão.














[junior ferreira]

sábado, 28 de janeiro de 2012

[...]












Se o Amor bater na porta, por favor,
diga que não estou.











[junior ferreira]

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

[...]











Com você não há quem possa
Saber das coisas do baú.

Com você há quem possa
Fazer de suas sentimentalidades algo palpável.
Com você, nessa fossa, há quem queira existir para fazer-te existir.











[junior ferreira]

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

[...]










Leve consigo o meu abraço,
ainda quente - na memória.

Leve, se precisar, os meus travesseiros,
ainda com o meu cheiro.

Leve como sua essência, que se transformará.
Pesado, como os ponteiros do relógio que ponderam o tempo.











[junior ferreira]
[...]











São os peixes que se alimentam das coisas que penso.
E quando se esquivam, no azul escuro do oceano, daqueles que cassam e nunca descansam,
levam consigo cada pedaço da minha memoria.

Espalham-se em ondas a minha infância,
ultimo beijo,
detalhes daquele dia que riamos desesperadamente.

Tudo aquilo que me sustenta e fornece equilíbrio se parte em pedaços quando minhas emoções são roubadas.










[junior ferreira]

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

[...]












Vejo e sinto até onde minha imaginação possa me levar.
















[junior ferreira]
[...]














O que gritam na avenida,
Os que gritam na avenida - e gritaram -  materializam o pânico ao ver aquela mulher morta dentre a multidão.

Os planos não são os mesmos - me disse uma vez uma amiga - os planos estão em diferentes frequências, mas quando se unem causam dor, susto - e por menos impensável - alegria para alguns que se veem tácitos e vagarosamente tomados por um frêmito que corta a espinha.

Eu vi a mulher sair multidão.











[junior ferreira]

domingo, 25 de dezembro de 2011

[...]











Eu ouço Joni Mitchell e os nossos livros são diferentes.
Você fala de Robert Toru Kiyosaki, eu de Ferreira Gullar.
Não abrimos as portas ao mesmo tempo - você não abre a porta para estranhos, nem se for o eletricista - nem atendemos os telefonemas com a mesma educação - você sempre o mais educado.

Rimos, entretanto, com a mesma intensidade.  Nos sentamos no mesmo espaço e dividimos perspectivas que nunca teremos em comum.
Embora tantos contrastes, sua presença modifica o meu dia. Por onde quer que caminhamos, ou quaisquer que sejam as formas que sua identidade assuma - por cartas, ou telefonemas - sua essência faz do meu dia, um lugar iluminado.



















[junior ferreira]

sábado, 17 de dezembro de 2011

[...]











Quero voar,
Vou à Saturno se por acaso liberarem a verba.

Levarei nossas bagagens; deixe pronto as roupas, vamos à Júpiter.
Leve o tempo, e nesta coordenada irei amar-te.

















[junior ferreira]

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

[...]












E de fato olho para diferentes ângulos dentro deste triangulo.
Em cada lado, menos sentido. E toda sua incoerência multiplicada pelo catetos, fazem deste uma figura visivelmente perfeita.


















[junior ferreira]

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

[...]


















E se tentam descrever quão singular é o ininteligível, mesmo aos mais filosóficos e aos doentios estudiosos que se dedicam à paixão, seria incansável. Absurdo se compreendo meus preceitos, se quando os tenho em mãos eu os perco - sempre. Notável pareça, para aqueles que não se queixam de que não há solidão quando nunca sozinhos estiveram - imperceptível se, lacônico, avaliar.

Mesmo que ainda palpáveis, as cartas que escrevi pela manhã foram roubadas de minha gaveta - e estranho para aqueles que as lerem - se permanecer alguma mensagem, que não me compreenda de forma errônea. Digo, se estamos apaixonados, não sabemos escrever - tudo é luz - corretamente. Contudo, ao desabar do mundo, os poetas que rondavam nossas veias, emergem e nos sugam toda a essência. O desespero, que em si é tão ardente e amargo, torna-se significante, fazendo-nos criar coisas que nos remete a uma paixão que está fora de nossa existência para adjetiva-la. 

E se amo, não sei dizer o porquê - nem como se diz eu te amo - ou quem estou amando.


















[junior ferreira]


terça-feira, 29 de novembro de 2011

[...]










Esse não é bem o derradeiro verão,
mas o início de mais um breve momento, no qual estaremos mais próximos.

E se o acaso nos afastar, quando eu estiver sozinho, imaginarei seus sorrisos se misturarem aos meus, se de fato, não estando mais ao meu redor, estará em minha alma.














[junior ferreira]

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

[...]









Eu conto as palavras
e se bato na porta, antes de entrar, perco o melhor de você.












[junior ferreira]

terça-feira, 22 de novembro de 2011

[...]












Você pode voar,
misturar o seu ao meu riso.

Você pode voar,
misturar seus braços aos meus.

Se eu pudesse voar...












[junior ferreira]

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

[...]











Não precisa chorar, o sol já vem.












[junior ferreira]

domingo, 13 de novembro de 2011

[...]





[...]












Tão rápido são os nossos diálogos,
ligeiros como o adeus - sem o ponto final - que me tira
toda a vontade de ter esperança em algo que esteja acima
de apenas uma boa amizade ou um bom dia.

E mesmo distante, sinto seu cheiro.
Aquele mesmo cheiro que inventei vir de você,
de suas roupas, de seu perfume tegumentar.



















[junior ferreira]


[...]




É a vida que se esvai nesse barco sem rumo,
ora e as ondas?!
As ondas não se cansam de ir e vir,
levando-nos a encontros que jamais imaginávamos experimentar.








[junior ferreira]

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

[...]












Nessa busca incansável pelos outros, sei que encontrará a si próprio.
E ainda que seja para você mesmo, vai conseguir dizer EU TE AMO.

                          Eu me recordo, na verdade, da nossa ultima noite.
















[junior ferreira]

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

[...]









E quando penso que tenho amor, não o tenho.
Tenho paixão, tenho medo.














[junior ferreira]


quarta-feira, 26 de outubro de 2011

[...]




E o frêmito me sobe a espinha e desce pelo corpo enquanto sua barba roça meu pescoço.
E o frêmito lhe sobe a espinha e desce por seu corpo enquanto minha barba roça seu pescoço.


E o que, de fato, se desemboca no final é o amor natural que se revela em estranhos momentos.















[junior ferreira]










sexta-feira, 21 de outubro de 2011

[...]



É tudo questão de tempo até percebermos que só temos a nós mesmos.















[junior ferreira]

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

[...]








Deixe o Sol bater em nossos pés
entrelaçados no braço do sofá.

          Deixe os nossos pés se aquecerem ao Sol,
          enquanto a sala,  indumentada por apenas nossos sorrisos e
          um sofá velho, ecoa um final de tarde vermelho.



















[junior ferreira]

sexta-feira, 16 de setembro de 2011



[...]






Vou caminhar por aí,
          sem tempo, pressa,
dar as mãos a você e aprender a voar.











[junior ferreira]

segunda-feira, 8 de agosto de 2011










Tenho pressa em viver,
urgência em ser feliz.


















[junior ferreira]













Minha tristeza não é banal,
é necessária.
Torno-me mais criativo nesses momentos.
Desenho mais, escrevo velozmente,
a decisão entre escolher o vermelho ou o azul é espontânea, coerente.

Mas não quero escrever a todo instante, não quero desenhar todos os retratos em um só final de semana, não quero.















[junior ferreira]

domingo, 7 de agosto de 2011

[...]







é mesmo velha, antiga, mas sempre será a minha casa
























[junior ferreira]

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

[...]








É necessário viver - em - nosso tempo.


















[Junior Ferreira]

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Vou guardar minhas camisas naquela caixinha embaixo do sofá - aquela que vem cobrindo uma bailarina dançante que se exibe na caixinha de música, uma caixa dentro de outra - guardar meus sapatos em cima da geladeira, minhas calças guardarei sob os teus lençóis - que ainda tem o cheiro de ontem, do suor de ontem - minhas cuecas jogarei pela janela, não as guardarei

Quando estou nú no centro da sala do apartamento gelado, sinto meu corpo se arrepiar, ser tomado por cada fremito, cada nervura que faz os meus pelos se arrepiarem e minha coluna gelar

Estávamos nus naquela manhã de setembro - acordava e sentia você beijando meu membro


Quero estar nú ao seu lado































[junior ferreira]

domingo, 12 de junho de 2011

Qualquer coisa que se assimile a nudez,
bunda
peito
vagina
corpo - uma sala sem os móveis -
fazem das nuvens, uma mulher,
as curvas da cintura transformando-se em lábio,
lábio em cabeça de cachorro,
este num castelo...
Modela-se a imaginação nas nuvens, e deixa-se levar
para onde as coisas não fazem tanto sentido - talvez, ainda, um sentido não palpável.





















[junior ferreira]

segunda-feira, 16 de maio de 2011








Café com leite bem morninho
na manhã gelada de terça feira,
juntamente com os gritos da vizinha, a construção ao lado - entre pedras e tijolos estourando - meus papéis vão caindo no chão enquanto estudo e ouço "don't think twice it's all right".

São os barulhos que fazem desta, a minha manhã veloz.



















[junior ferreira]

sexta-feira, 13 de maio de 2011












Boitatá
Kelpie
Luz
Fogo Fátuo

Qualquer coisa que brilhe a noite, o dia,
o presente veloz, independente de sua forma, cor ou existência.

E em teu nome carrega um peso mórbido,
mas em nada de obscuro as palavras ponderam.
O nome, que me fez lembrar das chamas azuis - resultados
da combustão de fosfina (PH3) gerada em corpos de plantas e animais em putrefação - flutuantes lá no brejo da Dona Não-Sei-Quem, é apenas um lugar carregado de espíritos e prosas, modelado no medo de alguns moradores, nas palavras de coisas vividas, sentidas.

O nome é apenas um presente - capa preta e algumas poesias - que recebi na manhã de quarta feira e acabou, num lampejo só, iluminando o meu dia.












Poesia em homenagem a um grande amigo e poeta 
Franck 

[junior ferreira]


domingo, 17 de abril de 2011












É tudo uma situação já cansada, repetida,
Forçada em certos aspectos.
Mesmo dizendo que me ama,
pergunto para mim mesmo
se eu me amo.
















[Junior Ferreira]

quarta-feira, 23 de março de 2011

O perfil esquerdo é mais largo,
O direito é menos denso e protuberante ao descer pelo queixo
Ao subir pelo nariz, as coisas são menos exatas

A cintura daquela garota é feito uma cobra,
Não queira saber o que ela faz na escada com as próprias pernas;
Os pés não se encaixam em sapatos, chinelos,
Meias ou qualquer outra coisa.

É assim que o amor se revela quando não se sabe revelar, muitas vezes, sem nexo como a garota que passa por mim todos os dias e nem sei o seu nome.

























[Junior Ferreira]

terça-feira, 25 de janeiro de 2011










O que, há dois anos, bebíamos e falávamos eu te amo um para o outro,
tornou-se, meses atrás, em boa tarde, bom dia.

Hoje, resta-nos um até logo nos finais de tarde - e nada mais.















[junior ferreira]

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011











Existe um amor natural cravado em certas coisas, nos retratos existe.
Enquanto folheio as páginas, lembranças dos cinco anos de idade - a época em que vovó era viva. Lembranças dos amigos que foram apagando-se com o tempo em duas páginas seguidas - cheias de sorriso, detalhes daquele dia na casa de praia - apenas lembranças.
São nos retratos que me perco, nestes que às vezes lembro de como eu era.
E vendo minha mãe chorar ao ver os sorrisos da minha irmã, posso dizer que os retratos mantém algo além de reminiscências.
A saudade de ter quem amamos por perto está também nos retratos.






















[junior ferreira]

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010



Agora que algumas coisas se concluíram, outras tendem ao mesmo caminho - como se toda a matéria tendesse ao mesmo limite - embora não na mesma velocidade, mas de uma violência tão desesperadora que tudo vai perdendo o sentido de ter acontecido.
E ver-se terminar, acabar de uma maneira tão discreta e irônica - e ao mesmo tempo não querer acreditar - que ninguém, nem mesmo quem começou, sabe que o fim tornou-se uma constante.
































[junior ferreira]

terça-feira, 28 de setembro de 2010



São poucas as vezes que posso dormir ouvindo a chuva - tão sem nexo sua chegada; faz um tempo bom, um barulho bom e acaba por fazer sentido quando tudo a evapora.

[...]

Não venha se não for para fazer sentido.

















[junior ferreira]

domingo, 26 de setembro de 2010






Não há lugar naqueles retratos
Nas gavetas, não há espaço para mais detalhes - que são meus.
Meus lápis e toda aquela história escrita por eles já não estão corretos; reminiscências imensuráveis. Esquecemos - de tudo - dos desejos.
Se toda saudade fosse lembrança, eu não poderia ter saudades de algo que nunca tive.

















[junior ferreira]

terça-feira, 14 de setembro de 2010

[...]












o mundo é meu maior problema















junior ferreira

sexta-feira, 20 de agosto de 2010


É tudo imaginação. Não estou com ela, com ele. Não estou na mata, estou em meu lugar, minha cidade que não é minha, mas não estou lá.
Esta melodia desdobra todas as minhas vontades - mesmo aquelas mais ínfimas nas quais preciso sentir o cheiro, a força do abraço e a textura da pele - e recolhe toda a esperança de não estar aqui.
O cheiro vem de longe e a vontade cresce à cada momento; não sei dizer se sou tua mãe, teu pai, irmão ou amigo; sinto você, muitos outros aspectos distorcem o que digo, entretanto - ou simplesmente jogam as palavras, por distração ou interpretação errônea, talvez.
Não estou lá, mas gosto de você.





















[junior ferreira]

sábado, 24 de julho de 2010














Gosto das árvores, de ficar deitado enquanto escuto os sussurros dos galhos rasparem na vidraça. Quanto a dizer o que são as árvores, não mais sei do que somente admira-las . E no entanto, isso perdura enquanto há vida.
Após a vida, a queda lenta dos pedúnculos verdes, enchendo o cálice da flor, à medida que vira, e nos enche de luz - momentos no qual a corola da fêmea flor exibi a nudez disfarçada entre tantos outros detalhes - banhando-nos com uma sensação ininteligével, talvez um desejo para persistir, algo que incita o apetite de viver; e viver apenas.



























[junior ferreira]

sexta-feira, 23 de julho de 2010













Do sofá, avistei, na estante, Lispetor, Cecília Meireles, Zélia Gattai e alguns anarquistas, graças a Deus -todos tão modestos e envelopados em folhas amareladas. Não hesitei, fui limpar a estante, sempre a quinta prateleira primeiro. Tantos livros, e ainda não consigo entende-los em sua totalidade - isso, talvez, é aquela coisa que eles denominam distração.
Limpei e organizei em ordem alfabética - por autores - todos os livros. Embora o lugar, escrupulosamente limpo, agora, fosse mantido em ordem, em todo o resto da sala notava-se uma estranha nudez, ausência de adornos, dos papéis pelo chão.
Notável presença daquilo que vem em certas horas para nos sufocar; uma ausência que não se descobre a origem e nem quando há de ter fim.

































[junior ferreira]

quarta-feira, 21 de julho de 2010












[A idéia de paixão o atormentou por um certo momento, e amargurado, levantou-se da cama e decidiu caminhar. De qualquer modo, seguiu em frente. A grande questão nas caminhadas é que ninguém se permite parar para descansar por muito tempo; todos logo se levantam para andar até se cansar novamente, e o desejo de acabar com o cansaço dá aos mais filosóficos, ou mesmo aos distraídos pelo amor e seus tormentos, uma sobrepujante razão para só ter um objetivo em mente, chegar em casa.
E quando se chega em casa, no lugar comum que não há solidão à de quem se vê sozinho; apaixonado mesmo sem saber por quem; como chegou àquele momento e se quis, realmente, estar ali. Pense o quão singular pareceria ficar sentado, excluindo cada momento dúbio, refletindo se se apaixonar platonicamente é um grande erro.]















[junior ferreira]















segunda-feira, 12 de julho de 2010














Um tanto incólume e incomum, dava para perceber os musgos, sorrateiramente, invadirem a casa da senhora Parvett, de acordo com que as madeiras tornavam-se menos férteis. Certamente suas janelas, ainda que briguem com o tempo, perduram na constante e frenética sensação oscilatória de se sacudirem. Não que a glória a tenha deixado, contudo a substância fora substituída pela languidez que se dispusera a cada canto.
Crescentes, as tentações não desviavam meu olhar ao tentar traduzir os epitáfios marcados na escada da mansão Parvett, embora apagados em certos instantes, visíveis em certas proporções; obscuros e desconexos de si como Elizabeth naquele lado da moeda ainda incoercível com os verdadeiros lados.
Os detalhes eram visíveis, enquanto viva. Inigualável e singular a senhora e a mansão indumentaram a cidade em diversas cores e sentidos: Amarela, quando próximo ao fim do Outono; Vermelho e marrom ao queimar os lábios pelo frêmito da paixão; Cinza ao se despertar neste nosso tempo, como se já não bastasse morta e agora acorda aquela coisa que sai de dentro da casa e deixam os ouvidos surdos.
Os retratos tornaram-se comuns. Maquiar de forma sensata, aniquilando os preceitos da verdade em recorte e borrões, fato inato a cada artista. Não compreendo mais a mansão desde que as cores passaram a multiplicar-se e transformar tudo ao redor, adquirindo a sua constante e elaborada forma. Isso remete-me ao buraco, no qual a presença da ausência intercala-se no peito. Detalhe, que talvez, denomino de saudade.





















[junior ferreira]

sexta-feira, 9 de julho de 2010














Arrumei as cadeiras em certas posições ao redor da mesa, ainda quadrada. Dissonante, a pintura da parede não se convergiu ao conjunto que eu organizei no meio da sala.
Após arrumar as cadeiras, na mesa, geometricamente, coloquei os talheres. Voltei-me ao forno, o frango ja estava dourado, não há o que impeça agora, de servi-lo da minha maneira. Sentei-me e aguardei o tempo combinado pelos amigos. Esperei. O tempo fez o seu trabalho e me fez cochilar. O frango havia esfriado, quando acordei, e os talheres estavam da mesma maneira. Resolvi servir-me então. A idéia de ter algum diálogo numa sexta-feira fora deixada pela primeira garfada, e ocorreram longos e duradouros monólogos até a ultima gota de vinho.
Ao encerrar disse a mim mesmo que iria comprar livros.






















[junior ferreira]













Equanto a empregada tentava acalmar a vizinha, ainda mais gritos saltavam das janelas. Levantei-me então e fui até o corredor, lugar no qual tudo ocorria.
A vizinha estava despida e desesperada, parecia falar em outra língua, talvez grego, suas lágrimas escorriam para cima, entravam em seus olhos. A senhora então começou a xingar a todos em grego, sim era grego. Desesperada saiu correndo pelo corredor, e bem no fim ela pulou a janela. Esta cena tornou ainda mais complexo a situação. Todas as pessoas que assistiam se entreolharam e foram se afastando. Entrei para o meu apartamento, a empregada continuou seus afazeres, nada parecia ter ocorrido.
Então acordei. Levantei-me e fui até a varanda. A vizinha estava fumando em sua varanda e acenou com a cabeça, devolvi com um sorriso, ainda torto. Eram dez da manhã e as pessoas na rua mantinham a mesma pressa de sempre. Este vínculo entre o sonho e eu mesmo quase me desvencilhou da realidade. Ao ver o mau humor tomar por completo a vizinha quando a empregada derrubara a orquídea, percebi, neste momento, que havia realmente acabado de acordar.

























[junior ferreira]

terça-feira, 6 de julho de 2010














"Ele me mandou flores hoje." contava à sua amiga como se fosse algo banal, como se receber flores fizesse parte de suas manhãs. Pelo menos era o que expressava enquanto tomava o café, e sua amiga, impaciente e curiosa, a observava, esperando mais detalhes, mais flores. Mas a conversa não progrediu, parou por ali e ambas se levantaram e saíram da cafeteria.
Fiquei ainda lá um bom tempo e as vi cruzando a rua. Enquanto a garota que parecia solteira falava, a outra fazia gestos como se já soubesse de tudo, mostrando-se sábia, pelo menos simulava essa idéia. Senti muita preguiça e voltei os olhos ao meu café.
Nada mais escuro que o meu café, menos sólido, que trêmulamente refletia meu nariz e olhos de uma maneira a tornar-me indescritível.
Se não fossem pelas flores, talvez não teria dado tamanha atenção ao diálogo, pois justamente estas que me atraem com tal beleza e fascínio. E direciono-me às orquídeas e aos olhos da maçã que se consome no fogo de sua pele, e exibe o vermelho, entre o amarelo da banana, de dentro da vasilha bem em cima da mesa. Iluminando a sala e a cozinha, acompanhada pela leveza do sol de fim de tarde que se esvai junto ao dia, a maçã consome-se sozinha e perde o seu brilho quando grita a noite.




























[junio ferreira]

segunda-feira, 5 de julho de 2010

[alguns resmungos]


[...]













[Sob certas luzes, que se produzira através do efeito das oscilações das cortinas da janela, pergunto-me se era mesmo uma mancha na parede ou uma árvore nascendo no canto da sala. Algumas coisas em forma de galhos foram espalhando pequenos feixes deslizantes de luzes que cortavam as gavetas e depois subiam pela parede e acabavam na estante. Para ser mais preciso as luzes tinham um fim na quinta prateleira da estante, na qual iluminavam-se a teoria quântica, a literatura de Jorge Amado e Drummond, a cabeça de Raduan Nassar sustentada pelo instinto materno de Lispector, alguns CDs que desconheço a origem e a robô de alumínio, a qual exige o mínimo de força para lhe dar uma idéia de vida e faze-la andar pela prateleira de madeira, retorcendo o som de sua máquina de metal que ecoa por todo o resto da casa.]


























[junior ferreira]

domingo, 4 de julho de 2010

[Abraçaram-se num mesmo fugor como se a despedida fosse para a eternidade. Percebi que a garota morena e de cabelos compridos não parecia gostar do abraço, recebendo-o com um certo desdém, sorriu num inefável disfarce. Como se não bastasse, sua amiga transcendeu a exímia farsa num sorriso recíproco. Nenhuma das duas percebera tamanho teatro, somente eu que tentava neste momento achar, entre milhares, a chave do meu apartamento.
Elas pareciam ter se esquecido de algum detalhe e retornam a conversa descartando a primeira despedida. Falam mais algumas coisas no corredor e as unhas tiveram sua importância, finalmente, enquanto a garota morena as roia desesperadamente ao saber, talvez, de uma notícia não tão boa.
Entre tantos outros espantos, sorrisos e abraços a tarde esvaiu-se e as duas entraram em seus respectivos apartamentos. No corredor as gargalhadas ecoaram-se por um bom tempo e aquele ar penetrou em minha sala, impregnando-se em meus cabelos e pele. Até o momento do banho senti-me tão sujo quanto o dialógo que se ponderou no corredor.]




















[junior ferreira]

terça-feira, 29 de junho de 2010







[A cada dia tenho estado mais cansado, habituando-me à cada grau de cansaço.
Tenho em mente de que quando chegar naquele estado de caveira não mesmo saberei interpretar meu desespero ou mesmo adaptar-me. Integrado ao estado de verdura encontrarei-me como a estante prostrada ao lado da porta, com os sentidos congelados pela força da madeira. Os sorrisos, agora empoeirados juntos aos livros e a bagunça das prateleiras, misturam-se ao humor da sala, que quando viva exalava o mesmo sentimento.]


















domingo, 27 de junho de 2010

[Há menos de mim em mim mesmo.
Não sei traduzir essas palavras de outro modo.
Neste momento, saber me auto-interpretar é uma arquitetura ainda trabalhosa.]

Antes de chegar em casa, subi dois morros mais longos do que os de costume. Duas mulheres passaram por mim, uma delas encarou-me como se me conhecesse, a outra não parava de falar. Tenho certeza de que não conhecia nenhuma delas, mas uma sensação de dúvida me perseguiu até o momento em que as ultrapassei. Desviei-me de ambas e subi o segundo morro. Neste não havia ninguém, só mesmo eu, o chão e os meus cabelos. Minhas unhas e mãos já estavam em estado de anestesia, o frio almejava-me a cada passo.
Em casa, não encontrei nada limpo nem na sala, nem na estante, nem na cozinha. Nao senti vontade de dormir. Trouxe o Quintana na mochila, resolvi ler e esperar o cansaço vencer-me.
Quintana não me deixa cansado. Subir o morro não me deixa cansado. As mulheres sim deixam-me exausto , olham-me, sorriem e não falam nada.
Esse efêmero olhar ficou em mim até o momento de dormir. A essência da curiosidade tomou-me por completo e percebi que o anjo de porcelana, parado na estante, encarava-me com um olhar dúbio. O relógio da parede lançou-me um olhar, o retrato, a estante e os livros espalhados sobre a mesa, lançaram-me olhares, como se fosse pra eu não estar ali, lendo Quintana. E todo o resto da casa conseguiu me cansar. Tantos olhares, espamos e inquietações, tudo ao mesmo instante. Enquanto tudo me observava, fechei Quintana na página 37, desliguei as luzes e pela sala mesmo resolvi dormir. Nem o anjo de porcelana e nem o relógio deram-me boa noite.

domingo, 21 de março de 2010











Acordei bem cedo e decidi que iria viver.
O fato da minha escolha, nao sei. Acaso? Não sei.
É possivel viver. Achar que esta vivo, contudo, é possivel. A morte esteve pela manhã na minha janela, sorriu seus dentes de uma noite não tão bem dormida. Ameaçou algumas pessoas, outras ela entristeceu cegamente. Sua exata existência é um contraste. Um vinil, dois lados conhecidos que não se interpenetram. É preciso morrer para que exista, ou mesmo percebamos, algo que denominamos vida.














[junior ferreira]

terça-feira, 16 de março de 2010





As Coisas


A bengala, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura, as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, os naipes e o tabuleiro,
Um livro e em suas páginas a ofendida
Violeta, monumento de uma tarde,
De certo inesquecível e já esquecida,
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Quantas coisas,
Limas, umbrais, atlas e taças, cravos,
Nos servem como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão muito além de nosso olvido:
E nunca saberão que havemos ido.







[Jorge Luis Borges]































"esta tarde, enquanto caminhava, mais barulhos se misturaram aos meus ouvidos. Esses barulhos condensaram-se a outras sinfonias arquitetadas por não sei quem. Tudo tornou-se tão prolixo que nem mesmo percebo meu corpo"(junior ferreira)

domingo, 14 de março de 2010

barulhos












Todo poema é feito de ar
apenas
a mão do poeta
não rasga a madeira
não fere
o metal
a pedra
não tinge de azul
os dedos
quando escreve manhã
ou brisa
ou blusa
de mulher.

O poema
é sem matéria palpável
tudo
o que há nele
é barulho
quando rumoreja
ao sopro da leitura.









[ferreira gullar]










"Não consigo definir o que é arte, mas quando leio ferreira gullar eu sei que é poesia, quando ouço philip glass sei que é música." (junior ferreira)